Choque de Gerações

Quando Amandinha entrou com aquele cabelo azul e um piercing de argola no nariz a mãe deu um pulo.

“O que é isso, minha filha, ficou maluca?”

“Foi o que eu disse assim que ela desceu do ônibus”, disse o Amauri, pai da garota, jogando as chaves do carro sobre a mesa da cozinha a caminho da sala de estar.

“Credo, mãe. É assim que a senhora recebe a sua filha depois de seis meses?, resmungou Amandinha.

Dona Vera enxugou as mãos num pano de prato e abraçou a filha, depois ficou examinando aquelas mechas azuis com olhar de reprovação.

“Sua avó vai chamar a sua atenção, Amanda. Você sabe que o povo mais antigo não gosta desse tipo de coisa”
“Mãe, eu não sou mais criança, e o mundo não é mais como era em mil-novecentos-e-não-sei-quanto, quando a vó era jovem. As coisas evoluem, ela precisa aceitar.”

“Que desgosto para a sua avó. Sair de Ribeirão do Pinhal para ver a neta, na noite de Natal, desse jeito”, disse Dona Vera, voltando para a pia, onde temperava um peru.

Amandinha jogou a mochila num canto e, servindo-se de uma maçã que estava na fruteira, disparou enquanto mastigava:

“Mãe, acorda. Nós não estamos em uma cidadezinha do interior do Paraná. Isso aqui é São Paulo.”

“Tudo bem. Só não me faça passar vergonha na hora da ceia”, disse Dona Vera, manobrando o peru no forno.

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Nesse meio tempo chegaram o Rodolfo, irmão de Dona Vera, acompanhado da esposa Mirian e dos filhos gêmeos de seis anos, Augusto e Gustavo. Também apareceu de última hora o Celso, irmão solteiro do Amauri. Então, a disposição da mesa ficou assim (em sentido horário): o Amauri na ponta – por ser o chefe da família -, Dona Vera, Amandinha, a avó – na extremidade oposta ao Amauri-, o Rodolfo e o Celso. A Mirian preferiu comer na sala com os meninos para evitar imundice no sofá da cunhada.

Lá pelas tantas, o Amauri decidiu puxar assunto e perguntou à filha como estava sendo morar sozinha no interior de São Paulo.

“A universidade abre a mente dos estudantes, mas o povo da cidade é um saco”, disse a garota, sem tirar os olhos da tela do celular.

“Mas também deve ter muita gente legal por lá”, retrucou o Amauri, forçando um sorrisinho divertido.

“Pai, estamos falando de São José do Rio Preto, só tem caipira lá”.
Nisso Dona Vera perdeu a paciência e deu um pisão no pé da garota, lançando um sorriso discreto para a vovó Lindalva, mas esta estava distraída, separando os pedaços de maçã da salada de maionese.

“Já fui num rodeio bão em São José do Rio Preto”, disse Celso com um sotaque caipira forçado, tentando mudar o assunto.

“Rodeio é coisa de fascista”, retrucou Amandinha, fulminando o tio com um olhar mortal.

“Não fale assim com o seu tio, moleca”, disse Amauri, enquanto cortava o pernil.

“Mas é verdade. Queria ver se fossem vocês no lugar do boi.”

“Esses bois são tratados melhor que a gente”, murmurou Rodolfo, sem desviar a atenção do prato.

“Ah, é! Queria ver se o senhor ia gostar se espremessem as suas bolas também”, rebateu, com o dedo em riste. Houve um silêncio ensurdecedor, Dona Vera e Amauri esboçaram um sorrisinho sem graça, tentando diminuir a importância daquele disparate. Pelo canto do olho, todos observavam a vó Lindalva, temendo que esta ficasse ofendida com aquele tipo de palavreado. Mas os pedaços de maçã na salada de maionese, somados a uma pitadinha de Alzheimer, mantinham a velha absorta em seu mundo, como se estivesse anestesiada.
Dona Vera, sem saber direito o que fazer, ergueu-se num sobressalto e anunciou com voz firme:

“Vamos cortar o peru!”

“Mais um animal que morre para satisfazer os desejos mesquinhos de vocês”, disse Amandinha, revirando os olhos.
E assim foi durante toda a noite. Alguém começava um assunto e a menina problematizava.

“Papai Noel é uma invenção capitalista”, “Essa salada tem agrotóxico”, “Jesus nunca existiu”, “O Natal era uma festa pagã”, “Não tomo refrigerante”, “Sílvio Santos é machista”, “Fulano é homofóbico”, “Meu corpo, minhas regras”, “pessoas como vocês financiaram a ditadura”, etc. O clima foi ficando cada vez mais pesado, o Rodolfo deu uma desculpa e foi embora com a mulher e as crianças antes do combinado. Só a velha Lindalva parecia não se importar com nada.

Ao final da ceia, naquela hora em que as pessoas desejam feliz natal umas às outras, a avó deu um abraço aconchegante na neta e sussurrou em seu ouvido com aquele tom de voz macio e carinhoso que só as avós possuem:

“Minha filha, desse jeito ninguém vai querer comer você”.

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