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– Não é maravilhoso?

– O quê? Disse ele, abrindo a braguilha.

– Essa coisa de banheiro unissex.

– Ah, sim. Muito bom.

– Pois é. Em pensar que há pouco tempo rolava todo aquele moralismo. Homem de um lado, mulher do outro.

– Sexismo bobo.

– FAS-CIS-MO – ela sempre separava as sílabas das palavras quando queria dar mais ênfase.

– Verdade, coisa de fascista.

– FAS-CIS-TA!

– Mas agora tá bom, né.

– Não é questão de ser bom ou ruim, Luiz Rodolfo. É O COR-RE-TO.

– Verdade, assino embaixo. Disse ele, fechando a braguilha e se dirigindo ao lavatório.

Barulho de descarga. A porta se abre. Ela sai, ajeitando a saia na cintura.

– Se tem uma coisa que me deixa louca é esse falso moralismo de gente retrógada.

– Somos dois.

Saíram do banheiro de mãos dadas. Era um lindo final de tarde e os raios alaranjados do sol refletiam na superfície de granito da plataforma. Quando o trem chegou, ele embarcou no vagão masculino e ela no feminino antiassédio. Seguiriam juntos novamente quando o trem chegasse em Itapevi, dezoito estações depois.

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O Homem Couve

O Homem Couve era um tipo bem singular que circulava pelas ruas do centro. Era, além de albino, portador de uma rara moléstia causadora de enormes erupções cutâneas que lhe conferiam um terrível aspecto de couve-flor.

Talvez pela sua condição, o Homem Couve vivia de bar em bar, enchendo a cara e arrumando confusão com desconhecidos. Muitos acreditavam que além daquela triste condição física o sujeito também tinha problemas mentais. O fato é que existia muito boato e pouca certeza sobre quem realmente era o Homem Couve. Muitas das histórias contadas a seu respeito não passavam de lendas urbanas, como uma bem famosa, que dizia que ele tinha o costume de cortar os cabelos das mulheres distraídas no meio da rua.

O Homem Couve era especialmente comentado nos bares da Rua Augusta, onde era facilmente encontrado. O fato da rua ser muito frequentada por jovens propiciava ainda mais a propagação de todo tipo de lenda urbana a seu respeito. Os jovens adoram essas histórias.

Em uma mesa de bar repleta de garrafas de cerveja vazias, um grupo de amigos discorria sobre os feitos do lendário Homem Couve. Eles eram Flávio (25 anos), Xandão (19), Estela (20) e Cacau (15 anos e identidade falsa). Todos ali pareciam se divertir muito com as histórias horripilantes a respeito daquele tipo que frequentava os mesmos bares onde os jovens costumavam passar boa parte de seus finais de semana, bebendo, fumando e jogando conversa fora. Apenas a Cacau parecia incomodada com aquele tipo de assunto, talvez pelo fato de ser “nova no rolê” e jamais ter visto o Homem Couve com seus próprios olhos.

Tudo para Cacau – cujo nome era Carolina-  era descoberta. Garota tímida e reservada, começara a frequentar a Rua Augusta havia algumas semanas, por influência de Estela, sua prima, que era universitária e morava em uma Kitnet na região da Santa Cecília. Os pais de Cacau costumavam manter a menina sob uma redoma de superproteção. Filha única, dotada de grande beleza e futura herdeira de uma promissora rede de restaurantes, Cacau era tratada não só como a garotinha do papai, mas também como um bilhete de loteria premiado. A aposentadoria tranquila de Regina e Alfredo – os pais – dependia do sucesso daquela garota frágil e circunspecta, uma vez que Regina não podia ter mais filhos, após uma série de complicações decorrentes do parto de Cacau.

Cacau sentia toda aquela pressão, embora seus pais nunca externassem de maneira direta qualquer tipo de cobrança. Suas notas na escola eram de dar inveja, não se envolvia com futilidades e sequer pensava em namorados. Passava os dias trancada em seu quarto, metida em leituras juvenis ou enfiada na internet. E foi só por isso que Regina e Alfredo cederam aos apelos da sobrinha Estela que insistiu em levar a garota para passar uns dias em sua kitnet durante as férias escolares.

Estela gostava muito de Cacau, mas não conseguia admitir que uma garota, no auge da adolescência, pudesse ter um tipo de existência tão débil e letárgica. Nos primeiros dias com a prima, Cacau mal abria a boca, mas aos poucos o gelo foi derretendo até que surgisse um quê de cumplicidade entre as duas.

A falsificação da identidade foi ideia de Estela. Deu certo no primeiro, no segundo e agora também no terceiro final de semana. Era uma falsificação grosseira, feita por ela mesma no computador de casa. O embuste era bem sucedido não pela qualidade do trabalho, mas pela displicência dos proprietários dos bares da região, que preferiam fazer vista grossa quando o assunto era vender bebida alcoólica para jovens. Afinal, a Augusta é dos jovens. Não é mesmo? Claro que é. Mas também é do Homem Couve, a figura mais emblemática do lugar.

E, como não poderia deixar de ser, ele era o assunto dos amigos naquela noite. Xandão contava uma história atrás da outra, enquanto Flávio meneava a cabeça e pedia para que o amigo pegasse leve para não assustar a garota. Estela só ria, Cacau só observava com ar de incredulidade e nojo.

couveXandão parecia um especialista em Homem Couve. Contava um causo atrás do outro e descrevia com riqueza de detalhes a textura repugnante da pele do desgraçado. Cacau sentia calafrios, os pelinhos dos braços se arrepiavam, sua boca se repuxava, externalizando o profundo asco que sentia por aquela figura que só conhecia através da descrição exagerada feita pelo ébrio e sem credibilidade Xandão.

Deixaram o bar lá pelas tantas e se dirigiam a uma balada que ficava alguns quarteirões abaixo, onde planejavam encerrar a noite. O Xandão ainda enchia o saco de todos com suas intermináveis e inverossímeis histórias a respeito do Homem Couve. Cacau escutava, Estela sorria e Flávio desmentia. “Agora você tá forçando a barra, Xandinho”.

“JURO POR DEUS, CARA!”

O assunto já tinha perdido a graça fazia tempo. Quando Xandão finalmente se calou, foi um alívio para todos. A noite era quente e a rua estava abarrotada de carros e transeuntes. Uma brisa agradável batia em seus rostos enquanto desciam a rua a caminho da Purgatório, a casa noturna para onde se dirigiam.

Acontece que nunca chegariam lá. Isso porque, no meio do caminho, o Xandão avistou a figura ímpar do HOMEM COUVE, ao vivo e em cores. O Garoto ficou fora de si.

“Agora vocês vão ver. Vou provar que tudo que eu disse é verdade. Olha ele lá. Olha ele!”

Cacau bateu os olhos naquela figura grotesca e sentiu um calafrio intenso. A boca semiaberta e a pele toda arrepiada. O Homem Couve não era tão nojento como imaginara. Era muito pior. Por um instante sentiu o estômago embrulhar.

“Vamos tirar foto com ele. Que se foda”.

Ninguém parecia muito animado com a ideia de Xandão, que a essa altura já apertava o passo em direção ao Homem Couve.

“Bora, caralho. Tão com medinho?”

Xandão fez uma abordagem invasiva, como se fosse amigo de infância do Homem Couve. A propósito, o álcool é um ótimo facilitador de abordagens. É ele que dá aquela dose extra de coragem que você precisa para se aproximar da menina bonita da festa ou do cara mais bizarro da cidade.

O Homem Couve devia ser bem carente. Tirou foto, deu risada, pediu um cigarro, bateu um papinho e até pagou duas garrafas de Skol para os novos amigos. A despeito da fama, era bem articulado e bonachão. A figura do monstro dera lugar à do tiozão engraçado. Contava piada de mineiro e de viado como ninguém. Xandão, estava extasiado.

“Você é foda, cara. Você é foda”.

Cacau e Estela encostaram num muro ao lado e observavam com ar divertido a empolgação de Xandão, que agora abraçava o Homem Couve enquanto Flávio tinha uma crise de risos.

“Não é que o Homem Couve é gente fina?”, disse Estela.

“Ele é nojento”, respondeu Cacau.

Conversa vai, conversa vem. Desce mais um latão de Skol, manda essa tequila pra cá. E o Xandão convenceu todo mundo a dar uma passadinha no apê do Homem Couve ali pertinho para tomar uma pinga de Minas “da amarelinha”. Cacau não queria ir, mas não disse nada. Ir à casa de um desconhecido com fama de monstro era o tipo de ideia que jamais passaria em suas cabeças se estivessem em condições de raciocinar. Mas, àquela altura, até mesmo Flávio, o mais velho e prudente dos quatro, já estava cruzando as pernas e falando cuspindo.

O apartamento do Homem Couve era decadente. Uma cama, um fogão, uma geladeira e uma cômoda. Tudo junto no mesmo cubículo. Era um desses prédios antigos, recém-invadido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. A energia elétrica foi instalada na base do gato. Bastava uma sobrecarga para termos um “Joelma Parte II” na cidade de São Paulo. Isso tudo só enriquecia toda aquela história maluca que um dia iriam contar até a exaustão e que certamente ninguém acreditaria.

O Homem Couve os recebeu muito bem. Não só serviu a tal da cachaça de Minas, como prometido, mas também colocou na roda um baita tijolão de maconha. O Roberto Carlos em Rítmo de Aventura comeu solto em uma vitrolinha Philips e logo uma densa nuvem de fumaça engoliu os cinco. As risadas se tornaram estridentes, Xandão não aguentou o baque e dormiu no chão. Cacau, mais à vontade, se esticou na cama e ficou curtindo a viagem. O ambiente era abafado e ela podia sentir o cheiro acre que exalava do Homem Couve, que a essa altura estava completamente empapado de suor. Ela ainda sentia muito nojo, mas Santa Marijuana não a deixava pensar muito sobre aquilo. Estela e Flávio ainda conversaram com o anfitrião durante um bom tempo até caírem num sono profundo.

Quando acordou, o Homem Couve se deu conta de que todos já tinham ido embora. Sua boca estava seca e a cabeça só faltava explodir. Sentiu-se só novamente. Sabia que ninguém queria mesmo manter estreitos laços de amizade com um monstro. Então, virou para o lado e voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.

Os quatro amigos tiveram uma ressaca psicológica em um primeiro momento, mas logo a aventura virou motivo de gargalhadas e assunto principal em todas as mesas de bar por onde passaram nas semanas seguintes. Apenas Cacau não compartilhava desses momentos. As férias haviam acabado e ela estava novamente enfurnada em seu quarto em algum lugar em Moema.

Passaram-se meses e ninguém mais comentava nada sobre aquela noite alucinante no apartamento do Homem Couve, a lenda da Rua Augusta. Talvez tudo aquilo ficasse no passado e restasse apenas uma doce lembrança daquela noite maluca. Aquele tipo de lembrança que sempre arrancaria um sorriso quando viesse à tona no futuro. Uma lembrança que seria muito boa, se a Cacau não tivesse dado à luz um menino com cara de couve-flor meses depois.

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A Chegada da Duquesa

Foi com grande espanto que os empregados da casa receberam o aviso da chegada da Duquesa. A madama estava em polvorosa, acordara cedo e, antes mesmo que o galo cantasse o bis, já estava completamente coberta de maquiagem e penduricalhos. Desceu as escadas aos berros, distribuindo ordens e proferindo impropérios gratuitos, andava pela casa à procura de qualquer sinal de desalinho ou partícula de poeira. Enfim, estava insuportável. Mas isso não era novidade, afinal, ela já havia dado mostras daquele comportamento xucro muitas vezes antes. O que de fato intrigava a todos era aquela súbita obsessão por limpeza, despertada em uma pessoa que era capaz de sacrificar um banho para não perder um pedaço sequer da novela.

Não via a Duquesa desde o dia do seu casamento — da madama, não da Duquesa —, quando deixou a vida de mocinha e a casa dos pais em São Paulo. Depois disso foi morar com seu marido Luiz Manoel em uma fabulosa cobertura tríplex em Brasília, onde passava os dias ociosa e sufocada pelo tédio da capital federal. Seu esposo estava sempre viajando a negócios e ela, mesmo cercada por dezenas de empregados e luxos infindáveis, sentia-se a pessoa mais solitária e incompleta do mundo. Foram dois longos meses até que as coisas estivessem mais ou menos organizadas para poder receber a Duquesa no mais absoluto conforto, livre dos cheiros e dos pós (a Duquesa era alérgica) advindos dos ajustes finais realizados naquela luxuosa residência recém-habitada. Finalmente a fulaninha teria alguém para lhe servir de companhia, alguém para conversar. Pois, com efeito, a Duquesa era uma grande amiga sua e, justamente por essa razão, a importância daquele momento era tão enfatizada. Queria celebrar com as devidas pompas a chegada de uma nova fase. Luiz Manoel também estava animado e, a propósito de uma de suas viagens de negócios a São Paulo, se prontificou a buscar a agregada tão esperada. O tal negócio em São Paulo foi acertado antes do previsto e logo na primeira noite na cidade o marido, já com saudade de casa, ligou radiante para a esposa avisando que estaria de volta no dia seguinte por volta da hora do almoço.

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Embriagada de ansiedade, a patroa mal conseguiu pregar os olhos durante a noite e por isso mesmo pulara tão cedo da cama. Agora, tomada por uma excitação de ditador comunista recém-empossado, coordenava a preparação de um banquete daqueles de parar o CEASA. Carnes de primeira, vinhos finos e o cacete a quatro desfilavam pela cozinha nas mãos de um exército de cozinheiros. Frutas frescas e legumes cortados artesanalmente, tão bonitos que dava até dó de comer, enfeitavam a grande mesa da sala de jantar. Talheres de prata e porcelanas cheias de frescuras, todos presentes de casamento, saíam dos armários para serem usados pela primeira vez. Enquanto isso, os empregados trabalhavam mais que camareira de motel no dia da secretária. Mal saía um bolo do forno e já entrava um pernil, tudo preparado do jeitinho que a Duquesa gostava. Num outro canto da casa as empregadas se desdobravam para deixar o quarto dela em ordem. Sobrou até para o chofer, que teve de lustrar o carro até furar a lataria antes de se dirigir ao aeroporto.

Ao meio dia já estava tudo irritantemente em ordem. A madama foi retocar a maquiagem em seus aposentos enquanto os empregados, ainda muito tensos, mexericavam sobre a tal Duquesa. Suavam frio, era a primeira vez que a chegada de alguém despertava tamanha comoção naquela casa. O mordomo ajeitava a gravata borboleta incessantemente enquanto os ponteiros do relógio se arrastavam. Até que, depois de quase uma hora de espera e frio na barriga coletivo, a campainha tocou. A patroa tomou a frente e fez questão de abrir, ela mesma, a porta.

Eufórica, abraçou a Duquesa efusivamente e derramou grossas lágrimas de alegria. Depois, ao lado do esposo e da amiga, desfrutaram daquele esplendido banquete. Foi tudo maravilhoso. Pena que a Duquesa fez xixi no carpete e latiu a noite inteira.

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Propaganda

Quem já andou pelo centro velho de São Paulo sabe o quanto é difícil se esquivar das abordagens muitas vezes truculentas daqueles que tentam – a todo custo – vender, ludibriar, extorquir, enganar ou simplesmente levar vantagem.

Vendedores de mercadoria roubada, falsificadores de documentos, ciganas videntes, engraxates, distribuidores de panfletos e prostitutas oferecem seus serviços de maneira invasiva, e por que não dizer agressiva, no sentido de hostil, não no sentido de persistente, como pregam os livros motivacionais para vendedores.

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O caso é que entre a oferta de um “Rolex” e um colar de miçangas também são muito comuns os pedidos de esmola. Alguns dos pedintes simplesmente ficam deitados na calçada embrulhados com densos cobertores (inclusive no verão) e mão estendida. Outros costumam exibir feridas mal tradas e deformações, enquanto outros exibem bulas de remédios e gritam a plenos pulmões que são portadores de Câncer, AIDS, Hepatite C, etc. Há ainda aqueles que expõem os próprios filhos à mendicância a fim de amolecer o coração dos transeuntes.

Diante de tantos pedidos de esmola, até mesmo as pessoas mais caridosas se veem, em um dado momento, obrigadas a dizer não, que nunca vem na forma simples de um não, mas sim do singelo “não tenho”, pronunciado baixinho e seguido daquele conhecido sorrisinho frouxo e amarelo de falsa compaixão. Embora todo mendigo conheça melhor do que ninguém esse tipo de desculpa furada, a grande maioria prefere fingir que acredita para não constranger ainda mais aquele que nega uma mísera moeda. Outros, no entanto, chegam mesmo a ofender e até ameaçar quem nega a ajuda. Mas é claro que esses são minoria e são geralmente enquadrados como usuários de drogas, alcoólatras ou doentes mentais.

Trocando em miúdos, existe uma concorrência muito grande até mesmo entre aqueles que, não preenchendo os requisitos do cidadão ordinário – no bom e, principalmente, no mal sentido –, acabaram marginalizados. Não raro observamos mendigos trocando sopapos por uma moeda ou um lugar na fila do albergue e até mesmo para pedir esmolas é preciso rebolar, no bom e também no mal sentido. Quem não foi agraciado com uma criança ou uma fratura exposta precisa usar de artimanhas para cativar os benfeitores.

Vejamos o caso dos viciados que, diante da dificuldade de angariar fundos através das ultrapassadas técnicas de comoção, resolveram apelar para a sinceridade. Sim, já se tornou comum a “sinceridade desesperada”, aquela que vem geralmente precedida do famigerado “- Eu poderia estar roubando ou matando…”. A abordagem é bem direta, o sujeito deixa bem claro que quer dinheiro para tomar um trago e, pego de surpresa, o passante se vê quase sempre inquirido a retribuir o ato de “honestidade” com uma moeda.

Para que o leitor possa ter a real noção dos benefícios da sinceridade, contarei um caso verídico e curioso, do qual tomei conhecimento há alguns meses.

Diz que na praça da república, ali na saída da estação, havia um homem na faixa de trinta anos mendigando. Em uma das mãos uma caixinha de remédio tarja preta, na outra, um velho boné de propaganda política. Embora fosse uma manhã muito fria e garoasse incessantemente, o homem trajava nada mais do que uma bermuda, uma camiseta e um par de chinelos de dedo.

A escada rolante da estação de metrô vomitava uma infinidade de pessoas apressadas saídas das profundezas. Havia um sem-número de guarda-chuvas se abrindo na medida em que desembocavam na superfície. Também se via muitos executivos protegendo-se da garoa com suas pastas. E como estivessem quase todos de cabeça baixa desviando das poças d’água, não notavam ou fingiam não notar a presença do pedinte que exibia a caixinha enquanto pedia encarecidamente que lhe ajudassem a comprar um remédio indispensável para o filho pequeno.

Após um longo tempo, fatigado e sentindo o corpo molhado congelando pelo vento, o homem finalmente decidiu partir para o tudo ou nada. Jogou a caixa de remédio para um lado, colocou o boné na cabeça e passou abordar uma por uma as pessoas que passavam pela calçada. E sem qualquer tipo de constrangimento começou a apelar:

– Sinhô. Vô sê sincero. Tô precisano de cinquenta centavo pra compretá o rateio da cachaça. Tem como o sinhô me ajuda?

E não se sabe se foi por valorização a tanta sinceridade ou por medo de sofrer a fúria de um alcoólatra desesperado que a solidariedade inebriou os corações das pessoas que por ali passavam e o desgraçado conseguiu arrecadar o que não esperava arrecadar em uma semana. Imagine você a emoção que ele sentiu quando entrou de cabeça erguida em um boteco para comprar uma marmitex, logo depois de ter garantido o remédio do pequeno. Sua esposa ficaria muito orgulhosa.

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Tempo Livre

Não era nem meio dia quando Dona Babilônia desmaiou no banheiro. Embora fosse mulher forte e robusta, sucumbira aos efeitos gasosos resultantes da mistura inconsequente de água sanitária, Pinho Sol e enxaguante bucal. Um coquetel poderoso bolado por ela mesma no afã de remover as manchas amareladas da banheira.

Dona Matilde, aturdida pelo baque, saltou da mesa do café e foi correndo acudir. Quando chegou, encontrou Dona Babilônia quase que completamente recomposta. Quem visse a pobre mulher naquele momento diria que nada havia acontecido, não fosse o uniforme encharcado e uma leve escoriação no joelho. Dona Matilde, em estado de choque, queria a todo custo meter a empregada num táxi e rumar para o Hospital. Mas, como Dona Babilônia era, além de forte, teimosa, recusou categoricamente os apelos da patroa.

Após alguns copos de água com açúcar e muita insistência por parte de Dona Matilde, ficou decidido que Dona Babilônia estava dispensada do trabalho pelo resto do dia, ficando liberada para repousar em casa ou procurar atendimento médico, caso o seu bom-senso falasse mais alto que a teimosia. Então, a empregada pegou o rumo de casa extremamente contrariada. Caminhava em direção ao Metrô remoendo lamúrias, enquanto, com os lábios semicerrados, proferia improperiozinhos de senhorinha.

—Pinoia…bexiga…diacho.

Em quase três anos servindo Dona Matilde, jamais faltara ao trabalho ou pedira dispensa. Atrasara pouquíssimas vezes, todas elas por conta das panes corriqueiras do Metrô. Sentia-se tão desconfortável com os atrasos que, nas raríssimas vezes que aconteciam, ficava até mais tarde para compensar. Sempre além do tempo necessário. Dona Matilde jamais lhe chamara a atenção, também não tinha motivos. No entanto, Dona Babilônia cobrava de si mesma o máximo de disciplina e comprometimento com o trabalho, pois na condição de viúva e mãe de quatro filhos, vivia constantemente assombrada pelo fantasma da demissão surpresa.

Trocando em miúdos, Dona Babilônia seguia pela rua nessa onda de lamentações e autoflagelamento psicológico quando se viu aturdida pela figura de um invertebrado e purpurínico John Travolta. Sim, O John Travolta, mas não o John Travolta de carne e osso, claro, pois nossa história ficaria inverossímil, mas sim na condição de boneco de papelão, desses usados em campanhas publicitárias que a gente costuma encontrar em gôndolas e quiosques de degustação nos supermercados.

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Para evitar maiores descrições, faço saber apenas que o boneco era, nada mais nada menos, que o excerto clichê do famigerado cartaz de “Os Embalos de Sábado à Noite”. O que pouca gente – ou ninguém – sabia, é que Dona Babilônia detinha uma espécie de amor platônico pelo astro da brilhantina. Não que ela preenchesse o perfil dos fãs e admiradores do bonitão polivalente, longe disso. Era mais provável que ela não soubesse pronunciar o seu nome ou até mesmo distingui-lo do Michael Jackson, o que não vem ao caso porque, nesses casos de paixão, besta é quem tenta entender.

Eis que o boneco estava na portaria de um desses velhos cinemas de rua do centro. O mais estranho de tudo não era “Os embalos de Sábado à Noite” estar sendo exibido nos dias atuais, mas sim o fato daquele cinema de rua, quebrando todos os paradigmas, não ser pornô. Caso contrário repeliria Dona Babilônia, que era uma montanha de acanhamento e pudor. Agora ela estava estacada na calçada onde permaneceu boquiaberta por incontáveis minutos, observando a figura do então jovem ator. Ela sabia que o conhecia de algum lugar e, de fato, assistira a um de seus filmes nos tempos de moçoila, em algum momento dos anos 80, quando começou a trabalhar em casa de família e teve acesso a uma televisão pela primeira vez. E foi assim, embriagada pela nostalgia, que lhe ocorreu uma ideia inusitada: entrar no cinema.

Nunca havia entrado em um cinema. Ninguém nunca a convidara antes. Na bilheteria, o movimento era baixo, para não dizer nenhum. De fato, era um cinema dos mais decadentes. Letreiro de neon parcialmente apagado, poltronas antigas infestadas de pulgas e percevejos e, sobretudo, um forte cheiro de naftalina. Um lugar detestável, mas que era, segundo o proprietário, vintage e ideal para a exibição de filmes antigos. E, com efeito, graças a essa jogada de mestre, aquela velha espelunca ainda estrebuchava heroicamente diante da morte iminente. Dona Babilônia, no entanto, estava encantada. Admirava os cartazes dos filmes enquanto ponderava a possibilidade de entrar e aproveitar o resto da tarde na companhia de John Travolta. Ninguém saberia de nada. Seria apenas uma diversãozinha furtiva. Uma plaquinha indicava o valor de R$ 5,00 por entrada. Um valor mais do que justo, face à decadência do cinema. Dona Babilônia tinha alguns trocados na bolsa. Ora, cinco paus não fariam tanta falta assim. E enquanto fazia essas conjecturas foi surpreendida pelo gerente do cinema que a observava do guichê.

—Vamos entrando?

Dona Babilônia, surpresa, olhou o relógio e confirmou o que já sabia. Teria tempo de sobra. Então, sem dizer nada, retomou o caminho para casa. Afinal, não podia desperdiçar a raríssima chance de colocar seus afazeres domésticos em dia.

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Um Testículo Vibrando

Dia desses comecei a sentir uma estranha vibração no testículo direito. Como estou sempre com o celular no bolso da calça, passei um bom tempo enganado, achando que estava recebendo SMS de cinco em cinco minutos Zzz Zzz. Já aconteceram muitas coisas bizarras no meu corpo, suficientes para tirar o meu sono por pelo menos uma noite. Entretanto, nada me preocupa mais do que anomalias abaixo da linha da cintura. Tenho muito medo de adquirir algum tipo de doença que me impossibilite de trepar ou cagar normalmente. Então, quando meu testículo começou a vibrar Zzzz Zzzz Zzzz, fiz o que todo homem sensato faria; pesquisei na internet. Não foi fácil, eu nem mesmo sabia o que escrever no sistema de busca. Seria melhor ‘testículo vibrando’, ‘vibração no testículo’ ou quem sabe usar os termos ‘tremer’ no lugar de ‘vibrar’ e ‘bola’ no lugar de ‘testículo’? Acabei tentando uma porção de coisas, mas não encontrei muitos resultados. Ninguém pode imaginar que um testículo é capaz de vibrar. Que dele nasça a vida, vai lá, mas vibrar…NÃO MESMO Zzz Zzz Zzz. Enfim, só paramos para pensar neste tipo de coisa quando acontece conosco. Ninguém dá a mínima para os bagos dos outros. Quem se compadeceria da minha bola vibrando?

                Acabei em um desses sites onde pessoas leigas têm suas dúvidas respondidas por outras pessoas leigas, encontrei o depoimento de um cara que dizia sofrer do tal problema da bola vibrante Zzz Zzz Zzz. Acontece que o cara era motoboy ou coisa do tipo e desconfiava que o fato dele passar o dia inteiro andando de moto pudesse ter causado o problema. A única resposta para o caso era de um internauta que afirmava que, talvez, os espermatozoides do motoqueiro estivessem pedindo para dar uma voltinha de motoca. Depois dessa, decidi que o melhor mesmo seria PROCURAR UM UROLOGISTA. Eu nunca havia ido a um urologista antes e não esperava ir antes dos 40 anos, quando será indispensável que o meu rabo seja vasculhado à procura de um tumor – isso se a ciência não encontrar técnicas menos invasivas até lá.

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                Cheguei cedo ao urologista – uns 15 anos antes do planejado. A recepção estava lotada e a recepcionista achou conveniente confirmar aos berros o meu nome completo e a especialidade para a qual eu seria direcionado, de maneira que todos os presentes pudessem ouvir claramente e imaginar a cabeça do meu pau parecendo uma couve flor, expelindo algum tipo de corrimento. Dava para ver a cara de nojo das velhas ao escutarem a palavra UROLOGISTA. Ninguém pensa em um testículo vibrando quando vê um cara procurando um urologista.

                O médico parecia bem normal – para um cara que mexe em pintos pelo menos seis horas por dia. Então me senti à vontade para relatar também um problema que eu havia tido alguns meses antes; uma certa ardência na hora de mijar, uma infecção urinária talvez. Ele disse que infecções urinárias são muito raras nos homens e que, muito provavelmente, eu estava com cálculo renal. Alguma partícula de sal poderia estar tentando escapar pela minha uretra, mas acabou entalada, roçando algum nervo que, incomodado, passou a mandar os alertas para o meu cérebro Zzz Zzz Zzz ‘pinto para cérebro’, ‘pinto para cérebro’, ‘responda cérebro’ Zzz Zzz…

                Fiquei aliviado por saber que uma pedrinha é capaz de fazer um testículo vibrar, de maneira que eu não estava ficando maluco. O médico pegou um bloco de papel e começou a prescrever um monte de exames: sangue, urina, espermograma completo, etc. Aproveitei o embalo e solicitei também a prescrição dos exames de HIV e Hepatite, já que ficaria tudo na conta da empresa onde eu trabalhava. Eu estava disposto a eliminar qualquer tipo de dúvida da cabeça. Não dá para ser 100% feliz quando não se tem um pedaço de papel atestando que você não tem nenhuma doença mortal. Uma vez, eu bebi demais e transei sem preservativo com uma garota que eu havia conhecido horas antes. Fiquei pelo menos uns quatro anos achando que tinha AIDS, e bastava algum comentário sobre o assunto na TV ou alguém com um laço vermelho na lapela para estragar o meu dia.

                Fui a um laboratório especializado e realizei a maioria dos exames, menos o exame de sangue, a ultrassonografia dos rins e o espermograma, pois todos precisavam de preparação. Para o espermograma seriam necessários pelo menos três dias de abstinência sexual, eu tinha apenas um ou dois dias, então pedi para que reagendassem. A recepcionista perguntou se eu queria levar um potinho para fazer a coleta em casa, achei melhor não, era repugnante a ideia de armazenar um potinho com porra no congelador de casa, junto com as carnes, as salsichas e as caixas de comida congelada. Uma semana depois, lá estava eu novamente no tal laboratório, com a barriga roncando de fome, por estar havia mais de doze horas em jejum, bebendo litros e mais litros de água para o exame de ultrassom. Fiquei um tempão esperando, minha bexiga já estava para explodir quando finalmente um cara me chamou. Disse que tudo estava pronto para a realização do espermograma. Eu não estava em condições de fazer a coleta do esperma, já estava quase mijando nas calças. Sugeri que a coleta fosse realizada após a ultrassonografia, ele concordou e eu voltei para a espera. Cerca de quinze minutos depois, fui chamado em uma sala onde uma loira gostosa me besuntou com gel e depois começou a cutucar os meus rins e minha bexiga com um aparelho que parecia um frasco de desodorante roll-on. Acabado o exame, me limpei mais ou menos com papel toalha e corri para o banheiro mais próximo onde – finalmente – pude dar uma mijada épica.

                Agora eu estava pronto para a coleta do esperma, mas, aparentemente, eles haviam se esquecido de mim. Fiquei mais um tempão esperando em uma sala de espera cheia de velhas fazendo suas palavras cruzadas e lendo suas revistas de fofoca. Fiquei puto e saí à procura do rapaz da porra, mas não o encontrei. No seu lugar, estava uma senhora de aproximadamente 60 anos, que me deu um potinho e um saquinho com lenços umedecidos. Perguntou se eu queria usar a sala simples ou a sala com TV. Escolhi a sala com TV. Havia um pequeno banheiro, onde higienizei o pinto e as mãos. Também tinha uma poltrona confortável, revistas de mulher pelada, de putaria e, estranhamente, uma revista Quatro Rodas – talvez fosse para os caras que preferem carros às mulheres -, no aparelho de DVD, um pornozão nacional com mulheres feias.

                Concentrei-me. Não foi tão difícil, afinal eu estava bem calmo, uma vez que eu sabia de exames muito mais dolorosos e constrangedores, como, por exemplo, o exame que um amigo meu teve de fazer uma vez. Acho que o nome do exame é biograma, e funciona mais ou menos assim: você fica uns três dias sem lavar o pau e quando ele estiver quase podre você vai a um laboratório onde uma enfermeira gostosa retira amostras de microrganismos do seu garotão – que a essa altura já encolheu a ponto de ficar do tamanho de um amendoim -, enquanto o seu rosto queima de vergonha.  Logo, bater uma bronha de frente para uma TV é mamão com açúcar. Abri a braguilha, coloquei o precioso pra fora e depois foi só deixar a Brigitte fazer todo o trabalho. Tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec tec… ploft. Uma mixaria de esperma. Merda, eu queria ter enchido o potinho para impressionar a enfermeira de 60 anos. Não deu. Ela apenas pegou o potinho da minha mão com um pedaço de papel toalha e começou a preencher um formulário, pediu para que eu esperasse alguns dias pelos resultados e me dispensou. No final, ficou confirmado que o meu problema era só o sódio mesmo, mas que, no geral, pelo resultado do espermograma, eu não tinha ‘porra nenhuma’ (TUM TSIIIII, rá rá rá). Então o médico pediu para que eu bebesse muita água e evitasse o excesso de sal na comida.
Agora estou bem, minha bola não está mais vibrando e não pretendo voltar ao urologista tão cedo. Também sou muito grato por estar saudável e por existirem pessoas no mundo que dedicam anos de suas vidas estudando pintos, cus e xoxotas. O que seria da humanidade sem esses profissionais? E se todo mundo resolvesse levar a vida bebendo cerveja com os amigos, assistindo futebol, tocando em bandas de rock, jogando baralho ou escrevendo besteiras? O que seria dos nossos rabos?

 

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O Homem Que Queria Ser Menina

Tudo aconteceu muito rápido, praticamente da noite para o dia. Um dia ele era o Ferreirinha, funcionário público com mais de 20 anos de experiência na repartição, no outro dia era a Fê, 12 anos, fã de boy bands.

Ora bolas! Como assim?

Ninguém sabe dizer se foi um surto ou sem-vergonhice mesmo, o fato é que um dia a mulher chegou em casa e o surpreendeu diante do espelho, usando as roupas da filha mais velha. Foi uma surpresa e tanto. A coitada precisou tomar água com açúcar e tudo, a pressão foi lá em cima, parecia que ia ter um treco. Teve uma briga feia, prato voando, porta batendo, ligações desesperadas para a família, o diabo.

A irmã chegou no começo da noite com o cunhado, o Ferreirinha trancado no quarto sem dizer palavra. O cunhado era daqueles tipos bem articulados, o típico comediante de churrasco. Achava tudo aquilo muito engraçado, mas evitou as piadinhas para não desagradar a esposa e a cunhada, que chorava com a cabeça enfiada nos travesseiros. Pediu diversas vezes para que o Ferreirinha abrisse a porta, mas não obteve resposta. Pensou em arrombar, mas desistiu da ideia quando lembrou da bursite. Foi quando viu um bilhetinho saindo por baixo da porta. Estava escrito com caneta rosa em uma folhinha de agenda: “Ferreirinha morreu. Ass.: Fê”.

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Não precisa nem falar na confusão que aconteceu nos dias que se seguiram. Exoneração do cargo, reuniões de família na casa da bisa, consultas médicas, visita de pastor evangélico e coisa e tal. Finalmente, quando viram que não tinha jeito mesmo, acabaram aceitando. Transformaram o escritório em quarto de menina e até lhe compraram roupas novas (a filha se negou a ceder as suas). Com o tempo, a Fê foi ocupando o lugar do Ferreirinha, que foi sumindo, sumindo, até desaparecer completamente.

Hoje, ninguém fala mais no Ferreirinha. A esposa passa os dias de roupão no quarto, fumando um cigarro atrás do outro. As filhas foram morar com uma tia de Minas Gerais, a bisa morreu de desgosto e os amigos da família tomaram chá de sumiço.

Epa! Então quer dizer que a história termina assim, com final triste?

Claro que não. A Fê virou YouTuber e ficou muito famosa. Hoje ela tem 18 anos, prestou vestibular para ciências sociais na USP, ministra palestras sobre ideologia de gênero e está prestes a lançar seu primeiro livro patrocinado com recursos da Lei Rouanet.

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