Seu Américo

Seu Américo era um homem pacato e metódico. Aposentado pelo Banco do Brasil, depois de anos de dedicação e profissionalismo, era admirado por sua honestidade e conduta irrepreensíveis. Acordava todos os dias às seis da manhã para lavar a calçada e cuidar dos passarinhos. Um homem acima de qualquer suspeita. Aquele vizinho por quem todo mundo colocaria a mão no fogo.

Naquela manhã, ele estava especialmente animado, pois a esposa havia ido a Aparecida do Norte em uma excursão da paróquia. A casa era só dele, passaria o dia só de cueca, tomando cerveja e comendo as porcarias que o médico havia proibido. À tarde, acompanharia o jogo do Santos pelo rádio. Seria um domingo perfeito.

Levantou da cama radiante, abriu a persiana e respirou o ar fresco da manhã, espreguiçou-se, coçou sua bunda flácida de velho, foi ao banheiro e urinou. Quando encostou o tubo de pasta de dente nas cerdas esgarçadas da velha escova amarela, algo surreal aconteceu: a cortininha de plástico do banheiro se abriu e uma equipe de reportagem saiu de dentro da banheira. Era um repórter, um cinegrafista e o rapaz que segura o microfone ambiente. Juro por Deus.

– Estamos aqui com esse senhor que não usa Frescor – disse o repórter, voltando-se para a câmera.

– O quê? Seu Américo estava perplexo.

– Por que o senhor não usa frescor? Indagou o repórter, empurrando o microfone na boca do velho.

– Eu… eu…

– O senhor não sabia que frescor é o creme dental mais recomendado pelos dentistas?

– Não…

– Pois é, e isso não é tudo: Frescor protege seus dentes de 28 tipos de males que atacam as bocas das pessoas.

– Meu amigo, eu não sei de nada. Como vocês entraram no meu banheiro?

– Como podemos ver, esse senhor desconhece completamente os benefícios de Frescor – declarou o repórter, dando uma piscadinha para a câmera.

– É bom que vocês tenham uma boa explicação ou…

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Seu Américo foi interrompido por um estrondo. A porta da sala havia sido arrombada e um grupo de policiais de elite subia as escadas empunhando metralhadoras. Quando chegaram ao banheiro, ele estava perplexo, segurando a escova.

– Mas que merda é essa?

O comandante da operação tomou a frente e apresentou um mandado de busca e apreensão. Seu Américo tentava ler com os olhos grudados no papel, pois estava sem óculos. Enquanto isso, outro policial retirava tudo que havia dentro do armarinho do banheiro, descrevendo cada item, um por um:

– Enxaguante bucal vencido, fio dental de má qualidade, outra escova velha…

– Opa! Essa aí é da minha esposa – bradou Seu Américo, com o dedo em riste.

– Acho que isso é tudo, senhor – disse o policial do armário para o comandante.

– Muito bem. Podem algemar.

– Como assim algemar? Eu não fiz nada – gritou Seu Américo, tentando forçar a saída.

Não teve jeito. O velho foi algemado e conduzido ao D.P. A equipe de reportagem registrou cada detalhe da operação. Horas depois, Seu Américo dividia uma cela minúscula com outro sujeito.

Mais calmo, decidiu puxar assunto com o desconhecido:

– Pasta de dente?

– Não. Roubo a banco.

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