A Má Notícia

A primeira coisa que o Aureliano fez quando chegou em casa após descobrir que só tinha mais três meses de vida foi entrar no site de uma agência de viagens e comprar uma passagem para a Grécia. Estava determinado a aproveitar seus últimos dias da melhor maneira possível.

No dia seguinte, faltou ao trabalho e nem se preocupou em ligar para o Pereira para dar satisfação. Saiu de casa assobiando Tico-tico no Fubá e cumprimentando todos que cruzavam seu caminho. Estava sereno, sentia-se bem como nunca havia se sentido antes. Entrou em uma dessas padarias de alto padrão e pediu ovos mexidos, torradas com geleia de morango, croissant, suco de laranja e café expresso. Quando saiu, deixou uma nota de cinquenta para o garçom.

No caminho de volta, comprou um Marlboro vermelho e um isqueiro Zippo. Nem se lembrava mais da última vez que havia colocado um cigarro na boca. Era ótimo. Ficar sentado no banco da praça observando as pombas era ótimo. Sorvete de palito era ótimo. Ônibus, árvore, jardim, mendigo, artista de rua, carrinho de pipoca, banca de jornal, testemunha de Jeová. Tudo era ótimo. Viver era ótimo. Nada podia estragar aquele dia maravilhoso, nem mesmo o Pereira, que ligava insistentemente.

PLOFT!

Agora o celular estava no fundo do chafariz.

– Vá à merda, Pereira – Aureliano resmungou enquanto caminhava com as mãos no bolso.

Ele passou o resto da tarde fora. Almoçou na churrascaria, tirou um cochilo na grama do Ibirapuera, comeu churro, fez uma tatuagem de rena e tomou chope na calçada da Avenida Paulista.

***

Chegava em casa quando o telefone tocou. Era o Dr. Peixoto.

– Como?

– Mas isso é um absurdo.

– Como assim foi um engano? Isso é muito sério, Dr. Peixoto.

– Isso não vai ficar assim. Explique para o meu advogado. Passar bem.

E bateu o telefone com fúria.

Pensou em acender um cigarro, mas desistiu. Tirou o telefone do gancho novamente e discou um número.

– Boa noite. Aureliano quem fala. Eu quero cancelar uma passagem…

Naquela noite ele não conseguiu dormir. Rolou de um lado para o outro, pensando em como iria encarar o Pereira no dia seguinte.

– Ele vai me matar.

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