O Homem Couve

O Homem Couve era um tipo bem singular que circulava pelas ruas do centro. Era, além de albino, portador de uma rara moléstia causadora de enormes erupções cutâneas que lhe conferiam um terrível aspecto de couve-flor.

Talvez pela sua condição, o Homem Couve vivia de bar em bar, enchendo a cara e arrumando confusão com desconhecidos. Muitos acreditavam que além daquela triste condição física o sujeito também tinha problemas mentais. O fato é que existia muito boato e pouca certeza sobre quem realmente era o Homem Couve. Muitas das histórias contadas a seu respeito não passavam de lendas urbanas, como uma bem famosa, que dizia que ele tinha o costume de cortar os cabelos das mulheres distraídas no meio da rua.

O Homem Couve era especialmente comentado nos bares da Rua Augusta, onde era facilmente encontrado. O fato da rua ser muito frequentada por jovens propiciava ainda mais a propagação de todo tipo de lenda urbana a seu respeito. Os jovens adoram essas histórias.

Em uma mesa de bar repleta de garrafas de cerveja vazias, um grupo de amigos discorria sobre os feitos do lendário Homem Couve. Eles eram Flávio (25 anos), Xandão (19), Estela (20) e Cacau (15 anos e identidade falsa). Todos ali pareciam se divertir muito com as histórias horripilantes a respeito daquele tipo que frequentava os mesmos bares onde os jovens costumavam passar boa parte de seus finais de semana, bebendo, fumando e jogando conversa fora. Apenas a Cacau parecia incomodada com aquele tipo de assunto, talvez pelo fato de ser “nova no rolê” e jamais ter visto o Homem Couve com seus próprios olhos.

Tudo para Cacau – cujo nome era Carolina-  era descoberta. Garota tímida e reservada, começara a frequentar a Rua Augusta havia algumas semanas, por influência de Estela, sua prima, que era universitária e morava em uma Kitnet na região da Santa Cecília. Os pais de Cacau costumavam manter a menina sob uma redoma de superproteção. Filha única, dotada de grande beleza e futura herdeira de uma promissora rede de restaurantes, Cacau era tratada não só como a garotinha do papai, mas também como um bilhete de loteria premiado. A aposentadoria tranquila de Regina e Alfredo – os pais – dependia do sucesso daquela garota frágil e circunspecta, uma vez que Regina não podia ter mais filhos, após uma série de complicações decorrentes do parto de Cacau.

Cacau sentia toda aquela pressão, embora seus pais nunca externassem de maneira direta qualquer tipo de cobrança. Suas notas na escola eram de dar inveja, não se envolvia com futilidades e sequer pensava em namorados. Passava os dias trancada em seu quarto, metida em leituras juvenis ou enfiada na internet. E foi só por isso que Regina e Alfredo cederam aos apelos da sobrinha Estela que insistiu em levar a garota para passar uns dias em sua kitnet durante as férias escolares.

Estela gostava muito de Cacau, mas não conseguia admitir que uma garota, no auge da adolescência, pudesse ter um tipo de existência tão débil e letárgica. Nos primeiros dias com a prima, Cacau mal abria a boca, mas aos poucos o gelo foi derretendo até que surgisse um quê de cumplicidade entre as duas.

A falsificação da identidade foi ideia de Estela. Deu certo no primeiro, no segundo e agora também no terceiro final de semana. Era uma falsificação grosseira, feita por ela mesma no computador de casa. O embuste era bem sucedido não pela qualidade do trabalho, mas pela displicência dos proprietários dos bares da região, que preferiam fazer vista grossa quando o assunto era vender bebida alcoólica para jovens. Afinal, a Augusta é dos jovens. Não é mesmo? Claro que é. Mas também é do Homem Couve, a figura mais emblemática do lugar.

E, como não poderia deixar de ser, ele era o assunto dos amigos naquela noite. Xandão contava uma história atrás da outra, enquanto Flávio meneava a cabeça e pedia para que o amigo pegasse leve para não assustar a garota. Estela só ria, Cacau só observava com ar de incredulidade e nojo.

couveXandão parecia um especialista em Homem Couve. Contava um causo atrás do outro e descrevia com riqueza de detalhes a textura repugnante da pele do desgraçado. Cacau sentia calafrios, os pelinhos dos braços se arrepiavam, sua boca se repuxava, externalizando o profundo asco que sentia por aquela figura que só conhecia através da descrição exagerada feita pelo ébrio e sem credibilidade Xandão.

Deixaram o bar lá pelas tantas e se dirigiam a uma balada que ficava alguns quarteirões abaixo, onde planejavam encerrar a noite. O Xandão ainda enchia o saco de todos com suas intermináveis e inverossímeis histórias a respeito do Homem Couve. Cacau escutava, Estela sorria e Flávio desmentia. “Agora você tá forçando a barra, Xandinho”.

“JURO POR DEUS, CARA!”

O assunto já tinha perdido a graça fazia tempo. Quando Xandão finalmente se calou, foi um alívio para todos. A noite era quente e a rua estava abarrotada de carros e transeuntes. Uma brisa agradável batia em seus rostos enquanto desciam a rua a caminho da Purgatório, a casa noturna para onde se dirigiam.

Acontece que nunca chegariam lá. Isso porque, no meio do caminho, o Xandão avistou a figura ímpar do HOMEM COUVE, ao vivo e em cores. O Garoto ficou fora de si.

“Agora vocês vão ver. Vou provar que tudo que eu disse é verdade. Olha ele lá. Olha ele!”

Cacau bateu os olhos naquela figura grotesca e sentiu um calafrio intenso. A boca semiaberta e a pele toda arrepiada. O Homem Couve não era tão nojento como imaginara. Era muito pior. Por um instante sentiu o estômago embrulhar.

“Vamos tirar foto com ele. Que se foda”.

Ninguém parecia muito animado com a ideia de Xandão, que a essa altura já apertava o passo em direção ao Homem Couve.

“Bora, caralho. Tão com medinho?”

Xandão fez uma abordagem invasiva, como se fosse amigo de infância do Homem Couve. A propósito, o álcool é um ótimo facilitador de abordagens. É ele que dá aquela dose extra de coragem que você precisa para se aproximar da menina bonita da festa ou do cara mais bizarro da cidade.

O Homem Couve devia ser bem carente. Tirou foto, deu risada, pediu um cigarro, bateu um papinho e até pagou duas garrafas de Skol para os novos amigos. A despeito da fama, era bem articulado e bonachão. A figura do monstro dera lugar à do tiozão engraçado. Contava piada de mineiro e de viado como ninguém. Xandão, estava extasiado.

“Você é foda, cara. Você é foda”.

Cacau e Estela encostaram num muro ao lado e observavam com ar divertido a empolgação de Xandão, que agora abraçava o Homem Couve enquanto Flávio tinha uma crise de risos.

“Não é que o Homem Couve é gente fina?”, disse Estela.

“Ele é nojento”, respondeu Cacau.

Conversa vai, conversa vem. Desce mais um latão de Skol, manda essa tequila pra cá. E o Xandão convenceu todo mundo a dar uma passadinha no apê do Homem Couve ali pertinho para tomar uma pinga de Minas “da amarelinha”. Cacau não queria ir, mas não disse nada. Ir à casa de um desconhecido com fama de monstro era o tipo de ideia que jamais passaria em suas cabeças se estivessem em condições de raciocinar. Mas, àquela altura, até mesmo Flávio, o mais velho e prudente dos quatro, já estava cruzando as pernas e falando cuspindo.

O apartamento do Homem Couve era decadente. Uma cama, um fogão, uma geladeira e uma cômoda. Tudo junto no mesmo cubículo. Era um desses prédios antigos, recém-invadido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. A energia elétrica foi instalada na base do gato. Bastava uma sobrecarga para termos um “Joelma Parte II” na cidade de São Paulo. Isso tudo só enriquecia toda aquela história maluca que um dia iriam contar até a exaustão e que certamente ninguém acreditaria.

O Homem Couve os recebeu muito bem. Não só serviu a tal da cachaça de Minas, como prometido, mas também colocou na roda um baita tijolão de maconha. O Roberto Carlos em Rítmo de Aventura comeu solto em uma vitrolinha Philips e logo uma densa nuvem de fumaça engoliu os cinco. As risadas se tornaram estridentes, Xandão não aguentou o baque e dormiu no chão. Cacau, mais à vontade, se esticou na cama e ficou curtindo a viagem. O ambiente era abafado e ela podia sentir o cheiro acre que exalava do Homem Couve, que a essa altura estava completamente empapado de suor. Ela ainda sentia muito nojo, mas Santa Marijuana não a deixava pensar muito sobre aquilo. Estela e Flávio ainda conversaram com o anfitrião durante um bom tempo até caírem num sono profundo.

Quando acordou, o Homem Couve se deu conta de que todos já tinham ido embora. Sua boca estava seca e a cabeça só faltava explodir. Sentiu-se só novamente. Sabia que ninguém queria mesmo manter estreitos laços de amizade com um monstro. Então, virou para o lado e voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.

Os quatro amigos tiveram uma ressaca psicológica em um primeiro momento, mas logo a aventura virou motivo de gargalhadas e assunto principal em todas as mesas de bar por onde passaram nas semanas seguintes. Apenas Cacau não compartilhava desses momentos. As férias haviam acabado e ela estava novamente enfurnada em seu quarto em algum lugar em Moema.

Passaram-se meses e ninguém mais comentava nada sobre aquela noite alucinante no apartamento do Homem Couve, a lenda da Rua Augusta. Talvez tudo aquilo ficasse no passado e restasse apenas uma doce lembrança daquela noite maluca. Aquele tipo de lembrança que sempre arrancaria um sorriso quando viesse à tona no futuro. Uma lembrança que seria muito boa, se a Cacau não tivesse dado à luz um menino com cara de couve-flor meses depois.

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