A Chegada da Duquesa

Foi com grande espanto que os empregados da casa receberam o aviso da chegada da Duquesa. A madama estava em polvorosa, acordara cedo e, antes mesmo que o galo cantasse o bis, já estava completamente coberta de maquiagem e penduricalhos. Desceu as escadas aos berros, distribuindo ordens e proferindo impropérios gratuitos, andava pela casa à procura de qualquer sinal de desalinho ou partícula de poeira. Enfim, estava insuportável. Mas isso não era novidade, afinal, ela já havia dado mostras daquele comportamento xucro muitas vezes antes. O que de fato intrigava a todos era aquela súbita obsessão por limpeza, despertada em uma pessoa que era capaz de sacrificar um banho para não perder um pedaço sequer da novela.

Não via a Duquesa desde o dia do seu casamento — da madama, não da Duquesa —, quando deixou a vida de mocinha e a casa dos pais em São Paulo. Depois disso foi morar com seu marido Luiz Manoel em uma fabulosa cobertura tríplex em Brasília, onde passava os dias ociosa e sufocada pelo tédio da capital federal. Seu esposo estava sempre viajando a negócios e ela, mesmo cercada por dezenas de empregados e luxos infindáveis, sentia-se a pessoa mais solitária e incompleta do mundo. Foram dois longos meses até que as coisas estivessem mais ou menos organizadas para poder receber a Duquesa no mais absoluto conforto, livre dos cheiros e dos pós (a Duquesa era alérgica) advindos dos ajustes finais realizados naquela luxuosa residência recém-habitada. Finalmente a fulaninha teria alguém para lhe servir de companhia, alguém para conversar. Pois, com efeito, a Duquesa era uma grande amiga sua e, justamente por essa razão, a importância daquele momento era tão enfatizada. Queria celebrar com as devidas pompas a chegada de uma nova fase. Luiz Manoel também estava animado e, a propósito de uma de suas viagens de negócios a São Paulo, se prontificou a buscar a agregada tão esperada. O tal negócio em São Paulo foi acertado antes do previsto e logo na primeira noite na cidade o marido, já com saudade de casa, ligou radiante para a esposa avisando que estaria de volta no dia seguinte por volta da hora do almoço.

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Embriagada de ansiedade, a patroa mal conseguiu pregar os olhos durante a noite e por isso mesmo pulara tão cedo da cama. Agora, tomada por uma excitação de ditador comunista recém-empossado, coordenava a preparação de um banquete daqueles de parar o CEASA. Carnes de primeira, vinhos finos e o cacete a quatro desfilavam pela cozinha nas mãos de um exército de cozinheiros. Frutas frescas e legumes cortados artesanalmente, tão bonitos que dava até dó de comer, enfeitavam a grande mesa da sala de jantar. Talheres de prata e porcelanas cheias de frescuras, todos presentes de casamento, saíam dos armários para serem usados pela primeira vez. Enquanto isso, os empregados trabalhavam mais que camareira de motel no dia da secretária. Mal saía um bolo do forno e já entrava um pernil, tudo preparado do jeitinho que a Duquesa gostava. Num outro canto da casa as empregadas se desdobravam para deixar o quarto dela em ordem. Sobrou até para o chofer, que teve de lustrar o carro até furar a lataria antes de se dirigir ao aeroporto.

Ao meio dia já estava tudo irritantemente em ordem. A madama foi retocar a maquiagem em seus aposentos enquanto os empregados, ainda muito tensos, mexericavam sobre a tal Duquesa. Suavam frio, era a primeira vez que a chegada de alguém despertava tamanha comoção naquela casa. O mordomo ajeitava a gravata borboleta incessantemente enquanto os ponteiros do relógio se arrastavam. Até que, depois de quase uma hora de espera e frio na barriga coletivo, a campainha tocou. A patroa tomou a frente e fez questão de abrir, ela mesma, a porta.

Eufórica, abraçou a Duquesa efusivamente e derramou grossas lágrimas de alegria. Depois, ao lado do esposo e da amiga, desfrutaram daquele esplendido banquete. Foi tudo maravilhoso. Pena que a Duquesa fez xixi no carpete e latiu a noite inteira.

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2 comentários sobre “A Chegada da Duquesa

  1. Cara, foi muito bom o plot twist da última frase. E o pior que é para ficar se perguntando sobre o porquê da surpresa, pois é completamente plausível e coerente com o tipo descrito. É cômico, mas ao mesmo tempo triste constatar uma vida tão vazia.

    Grande crônica!

    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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