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Quem já andou pelo centro velho de São Paulo sabe o quanto é difícil se esquivar das abordagens muitas vezes truculentas daqueles que tentam – a todo custo – vender, ludibriar, extorquir, enganar ou simplesmente levar vantagem.

Vendedores de mercadoria roubada, falsificadores de documentos, ciganas videntes, engraxates, distribuidores de panfletos e prostitutas oferecem seus serviços de maneira invasiva, e por que não dizer agressiva, no sentido de hostil, não no sentido de persistente, como pregam os livros motivacionais para vendedores.

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O caso é que entre a oferta de um “Rolex” e um colar de miçangas também são muito comuns os pedidos de esmola. Alguns dos pedintes simplesmente ficam deitados na calçada embrulhados com densos cobertores (inclusive no verão) e mão estendida. Outros costumam exibir feridas mal tradas e deformações, enquanto outros exibem bulas de remédios e gritam a plenos pulmões que são portadores de Câncer, AIDS, Hepatite C, etc. Há ainda aqueles que expõem os próprios filhos à mendicância a fim de amolecer o coração dos transeuntes.

Diante de tantos pedidos de esmola, até mesmo as pessoas mais caridosas se veem, em um dado momento, obrigadas a dizer não, que nunca vem na forma simples de um não, mas sim do singelo “não tenho”, pronunciado baixinho e seguido daquele conhecido sorrisinho frouxo e amarelo de falsa compaixão. Embora todo mendigo conheça melhor do que ninguém esse tipo de desculpa furada, a grande maioria prefere fingir que acredita para não constranger ainda mais aquele que nega uma mísera moeda. Outros, no entanto, chegam mesmo a ofender e até ameaçar quem nega a ajuda. Mas é claro que esses são minoria e são geralmente enquadrados como usuários de drogas, alcoólatras ou doentes mentais.

Trocando em miúdos, existe uma concorrência muito grande até mesmo entre aqueles que, não preenchendo os requisitos do cidadão ordinário – no bom e, principalmente, no mal sentido –, acabaram marginalizados. Não raro observamos mendigos trocando sopapos por uma moeda ou um lugar na fila do albergue e até mesmo para pedir esmolas é preciso rebolar, no bom e também no mal sentido. Quem não foi agraciado com uma criança ou uma fratura exposta precisa usar de artimanhas para cativar os benfeitores.

Vejamos o caso dos viciados que, diante da dificuldade de angariar fundos através das ultrapassadas técnicas de comoção, resolveram apelar para a sinceridade. Sim, já se tornou comum a “sinceridade desesperada”, aquela que vem geralmente precedida do famigerado “- Eu poderia estar roubando ou matando…”. A abordagem é bem direta, o sujeito deixa bem claro que quer dinheiro para tomar um trago e, pego de surpresa, o passante se vê quase sempre inquirido a retribuir o ato de “honestidade” com uma moeda.

Para que o leitor possa ter a real noção dos benefícios da sinceridade, contarei um caso verídico e curioso, do qual tomei conhecimento há alguns meses.

Diz que na praça da república, ali na saída da estação, havia um homem na faixa de trinta anos mendigando. Em uma das mãos uma caixinha de remédio tarja preta, na outra, um velho boné de propaganda política. Embora fosse uma manhã muito fria e garoasse incessantemente, o homem trajava nada mais do que uma bermuda, uma camiseta e um par de chinelos de dedo.

A escada rolante da estação de metrô vomitava uma infinidade de pessoas apressadas saídas das profundezas. Havia um sem-número de guarda-chuvas se abrindo na medida em que desembocavam na superfície. Também se via muitos executivos protegendo-se da garoa com suas pastas. E como estivessem quase todos de cabeça baixa desviando das poças d’água, não notavam ou fingiam não notar a presença do pedinte que exibia a caixinha enquanto pedia encarecidamente que lhe ajudassem a comprar um remédio indispensável para o filho pequeno.

Após um longo tempo, fatigado e sentindo o corpo molhado congelando pelo vento, o homem finalmente decidiu partir para o tudo ou nada. Jogou a caixa de remédio para um lado, colocou o boné na cabeça e passou abordar uma por uma as pessoas que passavam pela calçada. E sem qualquer tipo de constrangimento começou a apelar:

– Sinhô. Vô sê sincero. Tô precisano de cinquenta centavo pra compretá o rateio da cachaça. Tem como o sinhô me ajuda?

E não se sabe se foi por valorização a tanta sinceridade ou por medo de sofrer a fúria de um alcoólatra desesperado que a solidariedade inebriou os corações das pessoas que por ali passavam e o desgraçado conseguiu arrecadar o que não esperava arrecadar em uma semana. Imagine você a emoção que ele sentiu quando entrou de cabeça erguida em um boteco para comprar uma marmitex, logo depois de ter garantido o remédio do pequeno. Sua esposa ficaria muito orgulhosa.

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