Tempo Livre

Não era nem meio dia quando Dona Babilônia desmaiou no banheiro. Embora fosse mulher forte e robusta, sucumbira aos efeitos gasosos resultantes da mistura inconsequente de água sanitária, Pinho Sol e enxaguante bucal. Um coquetel poderoso bolado por ela mesma no afã de remover as manchas amareladas da banheira.

Dona Matilde, aturdida pelo baque, saltou da mesa do café e foi correndo acudir. Quando chegou, encontrou Dona Babilônia quase que completamente recomposta. Quem visse a pobre mulher naquele momento diria que nada havia acontecido, não fosse o uniforme encharcado e uma leve escoriação no joelho. Dona Matilde, em estado de choque, queria a todo custo meter a empregada num táxi e rumar para o Hospital. Mas, como Dona Babilônia era, além de forte, teimosa, recusou categoricamente os apelos da patroa.

Após alguns copos de água com açúcar e muita insistência por parte de Dona Matilde, ficou decidido que Dona Babilônia estava dispensada do trabalho pelo resto do dia, ficando liberada para repousar em casa ou procurar atendimento médico, caso o seu bom-senso falasse mais alto que a teimosia. Então, a empregada pegou o rumo de casa extremamente contrariada. Caminhava em direção ao Metrô remoendo lamúrias, enquanto, com os lábios semicerrados, proferia improperiozinhos de senhorinha.

—Pinoia…bexiga…diacho.

Em quase três anos servindo Dona Matilde, jamais faltara ao trabalho ou pedira dispensa. Atrasara pouquíssimas vezes, todas elas por conta das panes corriqueiras do Metrô. Sentia-se tão desconfortável com os atrasos que, nas raríssimas vezes que aconteciam, ficava até mais tarde para compensar. Sempre além do tempo necessário. Dona Matilde jamais lhe chamara a atenção, também não tinha motivos. No entanto, Dona Babilônia cobrava de si mesma o máximo de disciplina e comprometimento com o trabalho, pois na condição de viúva e mãe de quatro filhos, vivia constantemente assombrada pelo fantasma da demissão surpresa.

Trocando em miúdos, Dona Babilônia seguia pela rua nessa onda de lamentações e autoflagelamento psicológico quando se viu aturdida pela figura de um invertebrado e purpurínico John Travolta. Sim, O John Travolta, mas não o John Travolta de carne e osso, claro, pois nossa história ficaria inverossímil, mas sim na condição de boneco de papelão, desses usados em campanhas publicitárias que a gente costuma encontrar em gôndolas e quiosques de degustação nos supermercados.

mv5bmjiyndkynzawnv5bml5banbnxkftztcwotk3mdm2oq-_v1_sx640_sy720_

Para evitar maiores descrições, faço saber apenas que o boneco era, nada mais nada menos, que o excerto clichê do famigerado cartaz de “Os Embalos de Sábado à Noite”. O que pouca gente – ou ninguém – sabia, é que Dona Babilônia detinha uma espécie de amor platônico pelo astro da brilhantina. Não que ela preenchesse o perfil dos fãs e admiradores do bonitão polivalente, longe disso. Era mais provável que ela não soubesse pronunciar o seu nome ou até mesmo distingui-lo do Michael Jackson, o que não vem ao caso porque, nesses casos de paixão, besta é quem tenta entender.

Eis que o boneco estava na portaria de um desses velhos cinemas de rua do centro. O mais estranho de tudo não era “Os embalos de Sábado à Noite” estar sendo exibido nos dias atuais, mas sim o fato daquele cinema de rua, quebrando todos os paradigmas, não ser pornô. Caso contrário repeliria Dona Babilônia, que era uma montanha de acanhamento e pudor. Agora ela estava estacada na calçada onde permaneceu boquiaberta por incontáveis minutos, observando a figura do então jovem ator. Ela sabia que o conhecia de algum lugar e, de fato, assistira a um de seus filmes nos tempos de moçoila, em algum momento dos anos 80, quando começou a trabalhar em casa de família e teve acesso a uma televisão pela primeira vez. E foi assim, embriagada pela nostalgia, que lhe ocorreu uma ideia inusitada: entrar no cinema.

Nunca havia entrado em um cinema. Ninguém nunca a convidara antes. Na bilheteria, o movimento era baixo, para não dizer nenhum. De fato, era um cinema dos mais decadentes. Letreiro de neon parcialmente apagado, poltronas antigas infestadas de pulgas e percevejos e, sobretudo, um forte cheiro de naftalina. Um lugar detestável, mas que era, segundo o proprietário, vintage e ideal para a exibição de filmes antigos. E, com efeito, graças a essa jogada de mestre, aquela velha espelunca ainda estrebuchava heroicamente diante da morte iminente. Dona Babilônia, no entanto, estava encantada. Admirava os cartazes dos filmes enquanto ponderava a possibilidade de entrar e aproveitar o resto da tarde na companhia de John Travolta. Ninguém saberia de nada. Seria apenas uma diversãozinha furtiva. Uma plaquinha indicava o valor de R$ 5,00 por entrada. Um valor mais do que justo, face à decadência do cinema. Dona Babilônia tinha alguns trocados na bolsa. Ora, cinco paus não fariam tanta falta assim. E enquanto fazia essas conjecturas foi surpreendida pelo gerente do cinema que a observava do guichê.

—Vamos entrando?

Dona Babilônia, surpresa, olhou o relógio e confirmou o que já sabia. Teria tempo de sobra. Então, sem dizer nada, retomou o caminho para casa. Afinal, não podia desperdiçar a raríssima chance de colocar seus afazeres domésticos em dia.

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s