O Homem Que Queria Ser Menina

Tudo aconteceu muito rápido, praticamente da noite para o dia. Um dia ele era o Ferreirinha, funcionário público com mais de 20 anos de experiência na repartição, no outro dia era a Fê, 12 anos, fã de boy bands.

Ora bolas! Como assim?

Ninguém sabe dizer se foi um surto ou sem-vergonhice mesmo, o fato é que um dia a mulher chegou em casa e o surpreendeu diante do espelho, usando as roupas da filha mais velha. Foi uma surpresa e tanto. A coitada precisou tomar água com açúcar e tudo, a pressão foi lá em cima, parecia que ia ter um treco. Teve uma briga feia, prato voando, porta batendo, ligações desesperadas para a família, o diabo.

A irmã chegou no começo da noite com o cunhado, o Ferreirinha trancado no quarto sem dizer palavra. O cunhado era daqueles tipos bem articulados, o típico comediante de churrasco. Achava tudo aquilo muito engraçado, mas evitou as piadinhas para não desagradar a esposa e a cunhada, que chorava com a cabeça enfiada nos travesseiros. Pediu diversas vezes para que o Ferreirinha abrisse a porta, mas não obteve resposta. Pensou em arrombar, mas desistiu da ideia quando lembrou da bursite. Foi quando viu um bilhetinho saindo por baixo da porta. Estava escrito com caneta rosa em uma folhinha de agenda: “Ferreirinha morreu. Ass.: Fê”.

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Não precisa nem falar na confusão que aconteceu nos dias que se seguiram. Exoneração do cargo, reuniões de família na casa da bisa, consultas médicas, visita de pastor evangélico e coisa e tal. Finalmente, quando viram que não tinha jeito mesmo, acabaram aceitando. Transformaram o escritório em quarto de menina e até lhe compraram roupas novas (a filha se negou a ceder as suas). Com o tempo, a Fê foi ocupando o lugar do Ferreirinha, que foi sumindo, sumindo, até desaparecer completamente.

Hoje, ninguém fala mais no Ferreirinha. A esposa passa os dias de roupão no quarto, fumando um cigarro atrás do outro. As filhas foram morar com uma tia de Minas Gerais, a bisa morreu de desgosto e os amigos da família tomaram chá de sumiço.

Epa! Então quer dizer que a história termina assim, com final triste?

Claro que não. A Fê virou YouTuber e ficou muito famosa. Hoje ela tem 18 anos, prestou vestibular para ciências sociais na USP, ministra palestras sobre ideologia de gênero e está prestes a lançar seu primeiro livro patrocinado com recursos da Lei Rouanet.

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