Revelação

– Ritinha, eu não sei bem como dizer isso, então vou falar de uma vez: o Rodolfo senta na boneca.

– O quê? Como assim?

– Você sabe, pisa no chiclete, queima a rosca, enfim, ele é um jóquei de jiboia.

– Você quer dizer que o meu noivo é gay?

– Sim, mas eu não queria ser tão explícito na frente do padre e dos convidados.fad73522e77158508951d455484adb2e

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Seu Américo

Seu Américo era um homem pacato e metódico. Aposentado pelo Banco do Brasil, depois de anos de dedicação e profissionalismo, era admirado por sua honestidade e conduta irrepreensíveis. Acordava todos os dias às seis da manhã para lavar a calçada e cuidar dos passarinhos. Um homem acima de qualquer suspeita. Aquele vizinho por quem todo mundo colocaria a mão no fogo.

Naquela manhã, ele estava especialmente animado, pois a esposa havia ido a Aparecida do Norte em uma excursão da paróquia. A casa era só dele, passaria o dia só de cueca, tomando cerveja e comendo as porcarias que o médico havia proibido. À tarde, acompanharia o jogo do Santos pelo rádio. Seria um domingo perfeito.

Levantou da cama radiante, abriu a persiana e respirou o ar fresco da manhã, espreguiçou-se, coçou sua bunda flácida de velho, foi ao banheiro e urinou. Quando encostou o tubo de pasta de dente nas cerdas esgarçadas da velha escova amarela, algo surreal aconteceu: a cortininha de plástico do banheiro se abriu e uma equipe de reportagem saiu de dentro da banheira. Era um repórter, um cinegrafista e o rapaz que segura o microfone ambiente. Juro por Deus.

– Estamos aqui com esse senhor que não usa Frescor – disse o repórter, voltando-se para a câmera.

– O quê? Seu Américo estava perplexo.

– Por que o senhor não usa frescor? Indagou o repórter, empurrando o microfone na boca do velho.

– Eu… eu…

– O senhor não sabia que frescor é o creme dental mais recomendado pelos dentistas?

– Não…

– Pois é, e isso não é tudo: Frescor protege seus dentes de 28 tipos de males que atacam as bocas das pessoas.

– Meu amigo, eu não sei de nada. Como vocês entraram no meu banheiro?

– Como podemos ver, esse senhor desconhece completamente os benefícios de Frescor – declarou o repórter, dando uma piscadinha para a câmera.

– É bom que vocês tenham uma boa explicação ou…

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Seu Américo foi interrompido por um estrondo. A porta da sala havia sido arrombada e um grupo de policiais de elite subia as escadas empunhando metralhadoras. Quando chegaram ao banheiro, ele estava perplexo, segurando a escova.

– Mas que merda é essa?

O comandante da operação tomou a frente e apresentou um mandado de busca e apreensão. Seu Américo tentava ler com os olhos grudados no papel, pois estava sem óculos. Enquanto isso, outro policial retirava tudo que havia dentro do armarinho do banheiro, descrevendo cada item, um por um:

– Enxaguante bucal vencido, fio dental de má qualidade, outra escova velha…

– Opa! Essa aí é da minha esposa – bradou Seu Américo, com o dedo em riste.

– Acho que isso é tudo, senhor – disse o policial do armário para o comandante.

– Muito bem. Podem algemar.

– Como assim algemar? Eu não fiz nada – gritou Seu Américo, tentando forçar a saída.

Não teve jeito. O velho foi algemado e conduzido ao D.P. A equipe de reportagem registrou cada detalhe da operação. Horas depois, Seu Américo dividia uma cela minúscula com outro sujeito.

Mais calmo, decidiu puxar assunto com o desconhecido:

– Pasta de dente?

– Não. Roubo a banco.

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A Alma do Negócio

Arthur sempre escovou os dentes com Frescor. Os peritos ficaram admirados com a brancura dos dentes dele quando fizeram o reconhecimento da arcada dentária, depois que seu corpo foi encontrado carbonizado no porta-malas de um carro na Rodovia Mogi-Bertioga.

Rodolfo fez uso intenso de Anal Confort no tratamento das hemorroidas e conseguiu recuperar seu apetite sexual. Para o próximo congresso de corretores de seguros, no Guarujá, ele já convidou dois estagiários e o Edevaldo do RH.

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Giovana sempre usou Vaginil, mas passou a pesquisar outras marcas de sabonete íntimo depois que o Alfredo começou a sofrer frequentemente com aftas.

Arlete passou a usar Super Cleaner, o limpador multiuso que remove a sujeira 10 vezes mais rápido. Agora ela tem muito mais tempo para sair com o professor de violão do marido.

Marina só compra lingerie nas Lojas Tigresa. Ela já conseguiu dois aumentos de salário em seis meses.

Carlos Eduardo contratou a empresa Max Fort para instalar um moderno sistema de câmeras de vigilância em sua casa. Foi assim que ele confirmou que o caçula era filho do entregador de gás.

Agripino resolveu o problema das baratas depois que contratou os serviços da dedetizadora Mortex. Agora ele precisa pensar em uma boa desculpa para o desaparecimento do cachorro da esposa.

Ângela andava procurando uma marca de água sanitária mais eficiente até descobrir Corrosol, cinco vezes mais forte que a líder de mercado. Finalmente o suicídio foi bem-sucedido.

Jaime descobriu aplicações para o óleo lubrificante WG25 que vão muito além do uso em cadeados, bicicletas e automóveis. Seus amigos de sauna gay quase enlouqueceram com a novidade.

Argemiro resolveu o problema das micoses com Micogin e poderá usar a hidromassagem do puteiro na confraternização da empresa pela primeira vez em quatro anos.

Nove em cada dez personalidades de Marcos recomendam Esquizofren para o tratamento da esquizofrenia.

 

 

 

 

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Uma Fábula

Havia uma raposa muito esperta que adorava pregar peças nos animais de uma fazenda. Todos os dias ela pulava a cerca e aprontava uma das suas. Quebrava os ovos das galinhas, derramava a água do cocho das vacas, dava nó no rabo do cavalo, passava mel nas ovelhas, o diabo.

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Um dia, fartos das travessuras da raposa, os animais da fazenda fizeram uma reunião no celeiro para discutir o problema. Por sugestão do porco, que era o mais sábio, elaboraram um plano para pegar a velhaca de jeito. Quando a raposa aparecesse no sítio novamente, receberia uma lição.

No dia seguinte, foi dito e feito, a raposa pulou a cerca, deu um nó no rabo do cavalo, derramou a água do cocho, bebeu o leite do gato e já partia para o galinheiro quando viu uma cestinha de ovos na entrada da cozinha do fazendeiro – foram deixados lá de propósito pelas galinhas. A raposa deu um sorriso e foi em direção à cesta, quando entrou na cozinha, o porco saiu de trás do tanque de lavar roupas e fechou a porta à chave.

A raposa ficou desesperada, pois sabia que seria castigada pelo fazendeiro quando ele chegasse e percebesse que ela havia entrado em sua casa, mas sem ter o que fazer, apenas subiu na mesa e ficou observando pela janela os bichos que festejavam e provocavam-na do lado de fora.

Quando o fazendeiro chegou, os animais da fazenda ficaram eufóricos e fizeram questão de correr até ele para contar tudo. Todos falavam ao mesmo tempo, por isso o homem não conseguia entender nada, então o porco tomou a palavra e explicou tim-tim por tim-tim o que havia acontecido. Falou das travessuras da raposa e sobre como havia sido capturada, depois exigiu que o fazendeiro impusesse um castigo severo a ela para que nunca mais ousasse a pisar naquelas terras novamente.

O homem, depois de ouvir atentamente tudo que o porco disse, entrou na picape e saiu em alta velocidade pela estradinha de terra, deixando uma grande nuvem de poeira atrás de si. Ele nunca mais retornou à fazenda.

Moral da história: Animais não falam. Se algum animal lhe contar alguma história, procure um psiquiatra.

 

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Saída de Emergência

Adalberto viajava a negócios. Madalena e seu filho Matheus, de 9 anos, passariam o ano novo com a família. Bruno e Luiza eram namorados, faziam sua primeira viagem juntos e ele planejava pedi-la em casamento escrevendo “LUIZA, CASA COMIGO” na areia da praia. Pedro, Jonas e Gabi estavam voltando para casa depois de um semestre de estudos. Abel faria uma conexão, depois seguiria para Porto Alegre.

– Aeromoça! Pode trazer uma água sem gás por favor?

Gilson estava com a boca seca. Era a primeira vez que viajava de avião. Teria ido de ônibus se pudesse, mas o estado de sua mãe exigia urgência. Atrás dele, Fátima e Agapito estavam sem se falar, ele esquecera o aniversário de casamento.

– Sua água, senhor.

– Obrigado.

Mais à frente, Rafael escutava heavy metal no último volume. Mariana, ao lado dele, estava incomodada com a chiadeira dos fones de ouvido, encarava-o com um olhar fulminante enquanto ele batia com a palma da mão no joelho. Jorge era obeso e precisou comprar dois lugares. O Dr. Rodrigues de Noronha fazia palavras cruzadas.

Por favor, senhores passageiros, apertem seus cintos. Daremos início ao procedimento de pouso…. Dear passengers, rofff raushhh fooofff rofff…

CLIK! CLIC! CLICK! CLIK!

– Senhor, o cinto!

CLICK!

– Obrigada!

A aeronave começou sua trajetória descendente. Gilson suava frio. Lurdes e Cidinha, duas irmãs, dormiam pesadamente. Margareth, uma das comissárias de voo, afivelava o seu cinto de segurança em forma de xis. Arlene lia Stephen King e João derramou um pouco de Fanta na calça.

Era noite. As nuvens e a chuva dificultavam a visão, mas já era possível ver as luzes da cidade. Um raio caiu lá longe. Jorge engoliu um amendoim japonês, Mariana deu uma cotovelada em Rafael, Madalena segurou a mão de Matheus, o Dr. Rodrigues de Noronha finalmente descobriu qual era a palavra de 9 letras que começava com D e terminava com RO.  O trem de pouso travou…

TRAVOU!

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Agora o avião inicia uma trajetória ascendente. Aquele ar de estranhamento. Silêncio. Rafael tira os fones de ouvido e olha pela janela. Percebe que a pista de pouso fica cada vez mais longe, mas não comenta nada com Mariana. Madalena aperta a mão de Matheus e Jorge enche a boca de amendoins. Bruno cogita pedir Luiza em casamento ali mesmo, Fátima faz as pazes com Agapito. A tensão agora é visível. Apenas Margareth, a comissária de voo, parece tranquila.

– Senhoras e senhores, tivemos que arremeter devido a problemas técnicos. Retomaremos o procedimento de aterrissagem assim que possível. Ladies and gentlemen raughhh rooorrr raunnnff…

Começa um burburinho. Gilson está mais suado que virilha de corredor nigeriano na São Silvestre. As luzes se apagam por uma fração de segundos. Aumenta o burburinho. De repente, um solavanco. Uns gritos aqui e ali. Até mesmo Margareth está tensa agora. Alguém diz que é pane elétrica. Outro discorda. As luzes se apagam.

– Não falei que era pane elétrica?

Os minutos viram uma eternidade. Dois ateus se convertem ao cristianismo, outro vira agnóstico para não dar o braço a torcer. É possível ouvir alguém chorando baixinho.

– Senhores passageiros, é só uma turbulência – brada Margareth, enquanto aperta os braços da poltrona.

As luzes se acendem e tudo parece voltar ao normal. O comandante anuncia que a aterrissagem ocorrerá normalmente. Alguém faz uma piadinha para quebrar o gelo, outros agradecem a Deus, Jorge abre um pacote de batata frita.

O avião aterrissa em segurança. Depois do susto, todos estão radiantes e aliviados, menos o Givanildo, que nas últimas semanas estava cagando sangue e devia mais de vinte mil para um agiota.

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A Má Notícia

A primeira coisa que o Aureliano fez quando chegou em casa após descobrir que só tinha mais três meses de vida foi entrar no site de uma agência de viagens e comprar uma passagem para a Grécia. Estava determinado a aproveitar seus últimos dias da melhor maneira possível.

No dia seguinte, faltou ao trabalho e nem se preocupou em ligar para o Pereira para dar satisfação. Saiu de casa assobiando Tico-tico no Fubá e cumprimentando todos que cruzavam seu caminho. Estava sereno, sentia-se bem como nunca havia se sentido antes. Entrou em uma dessas padarias de alto padrão e pediu ovos mexidos, torradas com geleia de morango, croissant, suco de laranja e café expresso. Quando saiu, deixou uma nota de cinquenta para o garçom.

No caminho de volta, comprou um Marlboro vermelho e um isqueiro Zippo. Nem se lembrava mais da última vez que havia colocado um cigarro na boca. Era ótimo. Ficar sentado no banco da praça observando as pombas era ótimo. Sorvete de palito era ótimo. Ônibus, árvore, jardim, mendigo, artista de rua, carrinho de pipoca, banca de jornal, testemunha de Jeová. Tudo era ótimo. Viver era ótimo. Nada podia estragar aquele dia maravilhoso, nem mesmo o Pereira, que ligava insistentemente.

PLOFT!

Agora o celular estava no fundo do chafariz.

– Vá à merda, Pereira – Aureliano resmungou enquanto caminhava com as mãos no bolso.

Ele passou o resto da tarde fora. Almoçou na churrascaria, tirou um cochilo na grama do Ibirapuera, comeu churro, fez uma tatuagem de rena e tomou chope na calçada da Avenida Paulista.

***

Chegava em casa quando o telefone tocou. Era o Dr. Peixoto.

– Como?

– Mas isso é um absurdo.

– Como assim foi um engano? Isso é muito sério, Dr. Peixoto.

– Isso não vai ficar assim. Explique para o meu advogado. Passar bem.

E bateu o telefone com fúria.

Pensou em acender um cigarro, mas desistiu. Tirou o telefone do gancho novamente e discou um número.

– Boa noite. Aureliano quem fala. Eu quero cancelar uma passagem…

Naquela noite ele não conseguiu dormir. Rolou de um lado para o outro, pensando em como iria encarar o Pereira no dia seguinte.

– Ele vai me matar.

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O Conto da Imaginação

Imagine uma floresta. Imaginou? Agora imagine um lago e um velho chalé de madeira. Imaginou? Ótimo. Você está indo bem. Faz muito frio, o céu parece chumbo de tão fechado e uma garoa fina cai sem parar. Agora você olha para o chalé e percebe que tem uma fumacinha fina saindo pela chaminé. Epa! Também tem uma luzinha alaranjada tremulando na janela. Seria luz de vela? Parece que sim.

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A porta se abre, você vê alguém saindo. O que está fazendo aí parado que nem besta? Esconda-se antes que te vejam. Onde? Sei lá, imagina uma moita ou alguma coisa do tipo. Já sei. Que tal o tronco caído de uma árvore centenária? Imaginou? Ótimo, agora se abaixa. Espero que não tenham te visto.

Agora você consegue observar melhor a pessoa que saiu do chalé. É uma mulher. Está usando jeans, botas, um casaco verde e um gorro vermelho. Force a imaginação e verá que ela também está usando luvas e um cachecol preto de lã. Ela deu a volta no chalé e você a perdeu de vista. Estique um pouco o pescoço, quem sabe você consegue encontrá-la. Não? Nada? Parece que ela sumiu mesmo.

Opa! Olhe para a direita. Parece que está vindo alguém. É um homem, está saindo de dentro da mata. Está usando jaqueta de couro e boné azul, parece que está segurando alguma coisa. Ele está bem longe e parcialmente encoberto pelos arbustos, mas talvez você consiga identificar o que ele leva na mão. Conseguiu? Não? E agora? O quê? UMA FACA? PUTA QUE O PARIU? Calma! Abaixa a cabeça e respira. É bom manter a calma nessas horas.

Acalmou? Ótimo. Agora levante a cabeça bem devagar, com cuidado para que ele não te veja. Isso, devagarinho. Olha lá, agora ele está mais próximo do chalé. Está andando meio agachado para não chamar atenção, a faca está colada ao corpo. Esse cara não é flor que se cheire, vai por mim. Tomara que a moça fique onde está ou… não quero nem pensar no que poderia acontecer se… Meu Deus, lá vem ela. Está trazendo um feixe de lenha nos braços. A coitadinha está completamente distraída.

Atenção! O sujeito a viu, agora está se escondendo atrás daquele barco velho às margens do lago. Filho da mãe! Olha só, eu acho bom você pensar em alguma coisa, e rápido, antes que seja tarde demais. Pensar em quê? E eu é que sei? Que tal ligar para a polícia? Isso, pegue o celular que está no seu bolso e disque 190. Não, esquece, digita 911 que a história é nos Estados Unidos. O quê? Você não fala inglês? Não acredito. A vida daquela garota depende de você… Certo, mantenha a calma, vamos pensar em algo… JÁ SEI! Digite 911, quando atenderem diga help… RÉUP, não RÉUPI. Isso. Muito bem. Eu sei que você não sabe dizer onde está, mas talvez eles consigam rastrear sua ligação, os americanos são eficientes, vai por mim.

Como assim não tem sinal? É verdade, esqueci que você está no meio de uma floresta. Como é? Você teve uma grande ideia? Imaginar uma torre de celular? Que bobagem, ele vai perceber uma torre daquele tamanhão aparecendo do nada e… A propósito, onde está ele? E ELA? A porta do chalé está fechada, só Deus sabe o que está acontecendo lá dentro neste momento. Talvez seja tarde demais. Não vai ter jeito, você vai ter que agir. Saia de trás desse tronco agora e dirija-se sorrateiramente até o chalé, mas não vá com as mãos abanando. Imagine uma pistola automática, alguns pentes de munição, um colete à prova de balas e o final da história.

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